terça-feira, 24 de abril de 2012

A Tragédia no Futebol e na Imprensa

A Tragédia no Futebol e na Imprensa



O futebol, com todos os seus personagens, pode ser entendido como uma perfeita metáfora da vida. Em uma profissão curta o jogador de futebol, quando bem sucedido, vive momentos de glória e trágédia. Alegria , tristeza, euforia, depressão, medo, sofrimento, dor, extrema visibilidade, ostracismo, raiva. O futebol é trágico e patético. O que dizer de um jogador , de joelhos em campo, desculpando-se diante do árbitro pela infração cometida. A emoção domina a lógica dos atores em cena, já que com batimentos cardíacos acima de  100 por minuto, qualquer razão fica condicionada ao estado do atleta.  E foram muitos   os personagens da bola que escreveram essa história. No momento, com forte estratégia de marketing, nem sempre trilhando os caminhos da ética, foi lançado um filme sobre um ilustre artista da bola.  Heleno  de Freitas, o jogador talentoso, o galã, o pavio curto, o bem sucedido entre as mulheres. Com todos esses requisitos Heleno tinha tudo para ser uma celebridade, e de fato assim aconteceu. Em tempos de um capitalismo , onde a voracidade sequer se imaginava como a dos dias atuais, Heleno era notícia. Vendia, dava lucro. Se envolveu em brigas, glórias, mulheres, drogas e morreu novo, vítima de sífilis que o levou a loucura. Para os dias atuais, onde através da engenharia genética virus são produzidos em laboratórios e epidemias são fabricadas, a sífilis pode ser vista com saudades e romantismo. Bons tempos aqueles, diriam alguns com a idade avançada. Que saudades da gonorréia, diriam outros. Heleno não foi o único no futebol. Assim como ele muitos nas artes, na política seguiram o mesmo caminho. Alguns ocuparam cargos de grande importância, como presidentes de seus países, grandes artistas ainda pipocam no noticiário com morte prematura, mas Heleno, foi Heleno.Bem maior que Heleno, Garrincha teve o mesmo caminho, independente de subjetividades bipolares. O mundo do futebol não contempla a neutralidade, principalmente para os atletas. A imprensa, como de costume, se alimenta dos artistas para garantir seu pão. Cria ídolos, reis, imperadores, jóias, príncipes, monstros sagrados e depois, num passe magistral, joga todos na mesma vala do esquecimento, pois não produzem mais o encantamento e, principalmente, o lucro. Das luzes dos holofotes , dos prêmios  recebidos, dos abraços e lágrimas pelas conquistas,  restam apenas lembranças, guardadas cuidadosamente em fotos, medalhas, troféus. Tudo isso para atletas com menos de quarenta anos de idade. Como manter a mesma adrenalina proporcionada pelos tempos de atleta, é chave da questão, é o que leva para uma nova vida, na terra, no céu ou no inferno. O romântico éter usado por Heleno, hoje é substituído pelo álcool, cocaína, crack e heroína e, certamente, esses novos personagens, ainda vivos e atuantes, um dia serão tema de filme, após suas mortes, claro. Para a imprensa são apenas produtos que serão vendidos enquanto existirem compradores, mesmo que entrando em endereço trocado. A tragédia que o futebol  proporciona é bem menor do que a criada pela imprensa.


 Nossa Imprensa Esportiva...

O ano era 1972. Comemorava-se no país os 150 anos da independência do país. O sequiscentenário, palavra que criou alguns constrangimentos na imprensa esportiva. Para comemorar a data o Brasil sediou uma competição de futebol, chamada de Mini Copa do Mundo ou Copa Independência. Participaram do evento 16 seleções de futebol, divididas em quatro grupos, assim como acontecia na Copa do Mundo na época. Por uma ironia do destino, chegam a para disputar a grande finalíssima as seleções de Brasil e Portugal. No dia da grande final, com o  maraca lotado, tribuna de honra repleta de autoridades, no momento em que as  seleções entravam em campo, um empolgado repórter de uma emissora de rádio saiu com essa :
" Brasil e Portugal em campo. Chega o grande momento do Brasil reafirmar sua independência, esse país que tem o presidente gente como a gente"
Detalhe : O presidente era o general Médici.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Rio Zona Norte - 2 O Aparelho do Lins

O Aparelho do Lins

O abril continua vermelho,as cores da natureza sempre vivas, mas a história do Brasil continua a mesma. A hora para passar a limpo o passado é agora. Nas sangrentas batalhas travadas pela oposição conservadora e os movimentos sociais, o conhecimento sobre a verdadeira história do período da ditadura militar  parece que não mais aceita adiamentos. Em diferentes países a verdade foi passada a limpo, com punições ou não, a história seguiu. Na África do Sul, que viveu, talvez, o mais brutal e bestial regime de segregação racial, com milhares de mortos, a transição para a democracia não permitiu dissimulações ou falsas anistias. A Comissão da verdade, brilhantemente dirigida pelo nobelista Desmond Tutu, colocou frente a frente os dois lados da disputa. O processo foi doloroso, fazendo com que Tutu fosse às lágrimas por diversas vezes, diante das declarações. Assassinos e familiares dos mortos, independente das cores e do lado, falavam de suas angústias, tristezas e sofrimentos, por conta dos anos de luta. O processo foi fundamental, para que o país conhecesse sua história, valorizasse seu passado, e pudesse olhar com firmeza para o futuro. A África do Sul, independente dos sérios problemas ainda a resolver, ficou conhecida como o país de todas as cores, lugar onde a ignorância e estudipez,  tiveram como resposta a civilidade e o diálogo. Na América do Sul, que sofreu com a  barbárie de ditaduras, diversos países trouxeram a tona a verdade sobre os anos em que o sol não brilhou, exatamente na região do Império do Sol. Em alguns, os ditadores foram julgados, condenados e cumprem penas por seus crimes. Em outros, a verdade pode ser conhecida, com anistia para todos os lados. O importante, em todos os casos, foi a restauração da ordem democrácrita, a remoção do entulho autoritário dos poderes e, principalmente, a verdade, condições essenciais para evolução de uma nação. Nesse contexto, me veem lembranças do ano de 1973. Naqueles já distantes anos,  onde corujas e pirilampos bailavam entre sacis e fadas com os Secos& Molhados,  Raul Seixas não sentava no trono de seu apartamento com a boca cheia de dentes esperando a morte chegar e os Novos Baianos enlouqueciam a ditadura e sua patética censura, conheci Lucas. De um dia para o outro Lucas, que fora amigo na faculdade, sumiu. Décadas depois nos reencontramos e pude conhecer um pouco de sua história. Lucas militava em uma organização contra o regime militar. Na faculdade era de poucas palavras, mesmo porque qualquer conversa com mais de três pessoas podia ser vista como conspiração comunista. Seu grupo de ação, alugou uma casa, que servia de encontro , no pacato bairro do Lins de Vasconcelos, zona norte da cidade do Rio de Janeiro. O Lins era um bairro estratégico para o funcionamento de aparelhos. Sem ser um bairro de passagem, com pouco movimento, residencial com casas com cadeiras na calçada e na fachada escrito que é uma lar,  tinha saídas para o subúrbio pelo alto Meier, para o centro pelo Engenho Novo e para a zona oeste, pela estrada Grajaú - Jacarepaguá. O aparelho que Lucas frequentava ficava numa dessas ruas tranquilas, entretanto eles jamais poderiam imaginar, que na casa em frente morava um jornalista, que trabalhava para a ditadura como torturador. A rua, como em todo bairro da zona norte , tinha seus personagens. Seu Pinto era um deles. Aposentado, vivia com sua mulher, Dona Walquíria em uma casa próxima. Sujeito de pouca instrução, mas de grande austúcia e ótimo observador. Passava a maior parte dos dias  sentado em uma cadeira na porta de sua casa, ora lendo jornais, ora bebendo cachaça. Na casa em frente a de Lucas, vivia Silvério, o jornalista torturador, casado com Juliana. Tinham um filho, Pedro. Silvério não despertava suspeitas, menos para Seu Pinto, claro, por ser um sujeito familia que frequentava as missas aos domingos na igreja do bairro. Tinha uma rotina, que para Seu Pinto era estranha. Saía de casa as 5 horas da manhã, todos os dias,  voltava por volta das 10 horas, saía novamente por volta das 17 horas e voltava às 21 horas. As vezes ficava o dia todo fora de casa. Era um sujeito alto, de olhos claros, com uma aparência saturniana. No aparelho viviam diariamente, Paulo e Vera. Simulavam um casal recém casado, tinham em torno de 25 anos e para evitar fofocas , também frequentavam a missa aos domingos, mesmo sendo marxistas de carteirinha.  Tinham uma caminhonete DKW, um pouco surrada,  carro típico de aparelho. Não tinham uma rotina fixa, raramente recebiam visitas que pudessem ser vistas pelos vizinhos. Mesmo assim, Seu Pinto desconfiava deles.  Para os encontros e reuniões, que aconteciam com frequência, Paulo e Vera traziam as pessoas escondidas na caminhonete, sendo que muitos, ficavam , as vezes, semanas na casa, sem sair a rua ou aparecer para a vizinhança. Quando iam embora, também saim escondidos no carro.  Seu Pinto achava que Vera tinha uma expressão de medo constante, e achava que alí tinha coisa. Acontece , que em um determinado dia, Igor, um que vivia no aparelho e entrava escondido no carro, pelo vidro da janela avistou Silvério saindo de casa. Levou um susto tremendo, pois reconheceu Silvério como seu torturador. Certa vez, Igor que caminhava pela Avenida Rio Branco, onde estava estudando a rotina do Banco Irmãos Guimarães na esquna da Rua da Alfândega para uma ação de expropriação, foi agarrado e jogado em um carro. Foi levado para uma órgão de informação das forças armadas, nas  proximidades da Praça XV.  Ficou no local oito horas , onde foi interrogado, torturado e mandado embora, por atitude suspeita. No interrogatório estava presente Silvério, que além de trabalhar em um grande conglomerado de mídia carioca como jornalista, também colaborava como torturador para a regime, assim como os donos do conglomerado midiático. Igor levou vários choques elétricos nos  órgãos genitais, e diversos telefones, fazendo ficar sem audição por umas três semanas. Aguentou firme, não falou nada e  teve sorte de ter sido dispensado. Quando viu Silvério avisou rápido os demais companheiros do perigo que aquela figura representava. Depois de alguns dias de discussões, resolveram que o melhor seria assassinar Silvério, decisão que aumentou ainda mais o pânico de Vera. Vizinho ao aparelho tinha uma vila residencial, com saída para uma outra rua. Resolveram que iriam matar Silvério, tarefa destinada a Carlão, que simularia uma fuga pela vila mas pularia o muro para dentro do aparelho. E assim aconteceu. Em um dia, às cinco horas da manhã, Silvério levou um tiro certeiro na nuca e caiu. Carlão simulou a fuga e pulou para o aparelho, que naquele dia tinha apenas Paulo e Vera. O tumulto tomou conta da rua. Seu Pinto sabia que alí tinha coisa e grudou os olhos na polícia. Ninguém viu nada. No meio de perícia e de toda aquela gente, Paulo e Vera saíram de casa tranquilamente de carro, com Carlão escondido. Passados alguns meses , o tempo fechou. Em um tranquilo e melancólico domingo de zona norte, o aparelho foi cercado por "policiais" sem farda. O tiroteio foi intenso e os quatro que estavam dentro de casa resolveram se render. Paulo, Vera, Igor e Carlão. Lucas , por sorte escapou. Tido como romântico, pelos seus amigos de guerrilha, tinha se apaixonado por uma menina hippye, filha de um Almirante de linha dura membro da TFP e diretor do Lyons Club, e fora a um encontro com ela na Quinta da Boa Vista. Logo em seguida, quando soube que a casa estava crivada de balas e os amigos presos, Lucas saiu do país, pois sabia que estava na mira. Passadas quatro décadas, não se sabe o paradeiro de Paulo, Vera, Igor e Carlão. Seus familiares tentam , até hoje, saber a verdade sobre o que aconteceu, para que possam viver em paz e o país precisa dessa verdade para limpar seu entulho autoritário que persiste ainda. Lucas voltou depois do final da ditadura, mora na região serrana do Rio e é professor, foi salvo pela paixão. Juliana se agarrou a religião, frequentava a igreja todos os dias e acabou se apaixonando pelo padre, com quem casou e tiveram cinco filhos. Seu Pinto teve um fim trágico. Sentado na porta de sua casa viu duas pessoas na frente iniciar uma discussão que acabou em briga. Um dos envolvidos, viciado em corridas de cavalos, portava um grande binóculo que atirou no outro mas acabou acertando Seu Pinto. O impacto casou um ferimento na testa que evoluiu para uma sepitcemia, levando o aposentado a morte.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Rio Zona Norte - 1 O Aniversário e o Santo

   O Aniversário e o Santo


Ainda no Abril, vermelho e justo, inicio mais uma caminhada. A reestatização do setor de petróleo, na Argentina, ocupa minha pauta. Organizo o passo, a respiração e os assuntos. A harmonia é fundamental, pois do contrário, o pensamento toma conta, o passo acelera e a respiração fica curta. O dia é de uma beleza única. Um azul intenso que contrasta com o verde das  árvores. Cores e tonalidades que só a natureza produz. Quem sabe os vitrais da catedral de Chartres se aproximem, penso.  A polêmica do petróleo na Argentina colocou a imprensa rosnando e mordendo até poste. Já entrou no ridículo. Ontem, ouvindo uma comentarista da rádio band news FM,do grupo Bandeirantes, aqui do Rio, por pouco não fui mordido nas orelhas. A comentarista, tomada de raiva, dizia que a presidenta Cristina Kirchner, teria acordado de mau humor, por conta da pouca visibilidade que teve a proposta sobre a retomada das Malvinas na Cúpula das Américas, e devido a isso resolveu tomar a decisão de reestatizar  o setor de petróleo. Ora, isso  é prá lá de ridículo.  É o mesmo que dizer que se governa com o fígado, que não se tem planejamento, que decisões são tomadas por impulsos emocionais. A comentarista sequer mencionou a realidade de toda a América Latina, que nos últimos doze anos, vem, gradativamente, se descolando do projeto neoliberal, seja na aplicação de políticas sociais, no controle dos recursos naturais da região e até mesmo no controle pelo estado do setor financeiro. Aí se encontra o x do problema, como diz a música de Noel. A imprensa é , em sua maioria, alinhada com o ideário neoliberal e  não admite discutir outra alternativa, mesmo que tal realidade se imponha diante de seus olhos, como ocorre em nuestra América. O resultado é uma música desafinada, barulhenta e pesada, que coloca em risco , para muitos a correta compreensão dos fatos. A música barulhenta  não parou por aí. O jornal O Globo, hoje, em letras garrafais, apresenta em manchete a posssibilidade de um tribunal internacional para o caso argentino, esquecendo-se, propositalmente, do envolvimento de seus jornalistas com os crimes da enxurada do bicheiro. Chegou , inclusive, a afirmar que trata-se de uma decisão de caráter nacionalista populista, tal qual a do ditador Galtieri para seduzdir o povo argentino na aventura militar de 1982 nas Malvinas. Puro delírio do jornal dos Marinhos, que também ignora a realidade emergente da América Latina. Essa negação por parte da imprensa já chega nos limites da argumentaçao o que faz de seus conteúdos um ridículo disssonante. Esse comportamento escancara a fragilidade do setor no país e coloca em questão a necessidade de um novo marco regulatório para as comunicações. Defender um campo ideológico é normal, já ignorar a realidade produzindo-se versões estapafúrdias. pode sinalizar a existência de patologias, ou organizações criminosas, o que dá no mesmo. O descontrole foi tanto , que outros veículos de imprensa acusaram a presidenta de nazista, besta parda, e etc... Tudo isso por conta de um modelo que agoniza em todo o mundo, realidade que a música barulhenta e pesada da imprensa  se recusa a adimitir. Vamos aguardar os próximos capítulos, mas não tenho esperança que tenhamos música de qualidade. No meu passo sigo em frente. Vejo que me aproximo do Largo da Carioca e, certamente, encontrarei Tian. Tian, cujo nome é Sebastian, é um jovem de 22 anos que vive vendendo sua arte, canções, no centro da cidade. Conheci seus pais quando ainda era bem pequeno. Seu pai, Jurgen, um músico que tocava violino na orquestra sinfônica de Viena, veio ao Brasil em uma tournê da Osquestra, ficou por aqui mesmo e nunca mais voltou para Áustria. Conheceu Marlene, uma bela mulata com quem se casou. No início teve algumas dificuldades para viver, pois não conseguiu emprego como músico, mas logo depois abraçou a profissão de pescador. Conheci Jurgen  em um ensaio de bateria de nossa escola, que Marlene desfilava merecidamente como destaque. Tocávamos tamborim. Foi também através dele que passei a frequentar o terreiro de umbanda de Marlene, religião onde fora iniciado e tocava tambor nas celebrações. Infelizmente, quando Tian tinha doze anos, Jurgen veio a falecer. Antes , ainda me recordo algumas de suas palavras sobre Tian: " o menino é bom no música ". Faleceu não por suas aventuras em mar aberto, como temia Marlene, mas ironicamente devido a uma infecção intestinal, contraída por conta da ingestão de mexilhões estragados, oriundos de uma criação nas águas da baía da cidade de Angra dos Reis. " deis paçoca  um real, vai ?  Levo um susto, pois um rapaz magro, de bermuda e com uma camiseta surrada aparece na minha fente oferecendo seu produto, Ele são de uma agilidade impressionante, aparecem do nada. Se parecem com spams que se materializam em nossa frente. Driblo o rapaz e sigo em frente. A paçoca, porém me trouxe outra lembrança de Jurgen. No aniversário de dez anos de Tian, jurgen e Marlene fizeram uma grande festa. Tinha feijoada, churrasco e todos os demais complementos e, sim, muita cerveja, além de um samba de primeira. Como em toda festa de criança, sim era aniversário de dez anos de Tian, também tinham muitos doces e um bolos, Chamou a atenção de todos , fazendo sucesso entre adultos e crianças, uma paçoca gigantesca preparada por Marlene. No momento de cantar os parabéns, onde todos estavam reunidos, aconteceu o que já se previa. Um santo desceu, em uma mulher de pele bem clara, gordinha, de idade avançada, com um olhar vivo e uma alegria contagiante. Como era de se esperar, um santo de criança. A mulher, agora engatinhando pelo salão e falando como criança, sorria e brincava com todos, que também sorriam. Entretanto ela, resolver se enrolar em minha pernas.  Sente medo, perguntou com voz de criança. Não, sorri e respondi. Se não sente medo é porque não tem segredos, disse o santo. Sorri e disse que não sentia medo mas todos tem segredos. Ela disse que se não sentia medo não tinha segredo, tinha assuntos reservados, pois quem tem segredos tem medo de criança. Sorri e achei por bem não polemizar com o santo. Em seguida ela disse. Você é uma pessoa bem humorada, não é ? Disse que me achava bem humorado e que as pessoas que convivem comigo também achavam o mesmo. Você sente saudades de sua infância, perguntou. Disse que não sou chegado a saudades e nostalgias e, que os  períodos da minha vida, asssim como pessoas que convivi, me trazem boas lembranças , o que me deixa alegre e feliz.  É por isso que você é bem humorado, disse ela. Continuou. A saudade por aquilo que não pode voltar deixa as pessoas tristes, mal humoradas e melancólicas. A saudade constante mata a criança que existe nas pessoas, e matar a criança dentro de nós e matar a alegria de viver, disse engatinhando e se afastando de mim. Pensei nos orientais que não abandonam a criança de sua vidas, nos seus sorrisos de criança. Talvez a saudade, a nostalgia e a melancolia sejam oriundos de uma cultura cristã que valoriza a dor e o sofrimento, pensei. Resolvi deixar esse assunto para depois e fui provar a paçoca da Marlene, que já estava se esgotando. Chego no Largo da Carioca e avisto Tian. E aí , jovem , como vão as coisas ? Grande Che, como vai ? Tian sempre me chama de Che. Ele me vê como um revolucionário socialista, apesar de ter dito para ele que não conspiro revoluções, apenas defendo uma sociedade mais equlibrada, justa , econômicamente sustentável, onde todos tenham acesso a saúde , educação e desfrutem das mesmas oportunidades  e direitos. Mas parece que não convenci. Tian, por seu lado, não é adepto do socialismo, nem do capitalismo e menos ainda da democracia atual. Defende a ampla participação popular em todas as esferas de poder, a ecologia e direitos iguais para todos, Convergimos nos fins. Percebo em Tian um viés levemente anarquista e uma simpatia pelo movimento pirata europeu E aí, jovem Como vai a música ?
Naquela batalha que você conhece, as vezes tiro algum, outras nada. Vou vivendo. Um dia chego lá, citando um trecho da canção de Diogo Nogueira.
Ainda não começou a cantar, parguntei.
Ainda é cedo, são dez horas, começo lá pela hora do almoço quando o movimento aumenta. Por enquanto monto a barraca e vendo alguns cd's.
Não questionei, pois Tian tinha conhecimento de causa. E o público, é receptivo, perguntei. Parou um instante, me olhou e notei que vinha uma explicação mais detalhada. Veja, começou falando movimentando os braços e as mãos, com uma organização de assuntos , palavras e uma lógica características de músicos quando expressam suas idéias. As pessoas que por aqui transitam, não estão direcionadas em suas expectativas para a música. A movimentação urbana se caracteriza pela aflição e cumprimento de metas. A música produz um freio, um alerta, uma chamada para novas experiências em pessoas desconectadas .  Repare que as canções de grande sucesso, despertam a atenção dos transeuntes. Para chamar a atenção com arte, em aglomerações urbanas, se faz necessário uma arte impactante, nova ,inovadora, caso contrário todo mundo que por aqui passa só vai querer ouvir os grandes sucessos. Lembre-se , Che, essa pessoas estão no seu dia dia, não se permitem a descobertas ou experimentos, estã em horário de trabalho querem o conhecido, ou o fantástico. Ouvi Tian com atenção e não questionei, Sua tese carrega elementos de uma realidade que ele vive diariamente. Continuei a ouví-lo, ainda que o achasse algumas vezes prolixo. Minhas canções Che, não são para que as pessoas levantem os pés do chão e coloquem as mãos para cima. As letras não são absorvidas pelos ouvintes logo na primeira audição. As harmonias não são tão simples. Não é arte para a maioria das emissoras de tv e nem para as emissoras de rádio. Não tem jabá na minha arte. Sorrimos. Falei para Tian que tinha que ir, pois estava na movimentação urbana que falara.  Nos despedimos e a distância observei o jovem e talentoso Tian.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Hades Voltou

Rio de Janeiro - 4    Hades Voltou


Em mais um dia típico de abril, sempre vermelho como ocorre nos últimos anos, fazia minha caminhada matinal pelas ruas do centro da cidade.  Enquanto caminhava, e tentava adivinhar se teria chuva pelo caminho, pensava nos acontecimentos do momento e imaginava uma correlação entre os fatos. De repente sou tomado por um cidadão, com os olhos arregalados e olhando pra mim de forma intensa, que segura meu braço e diz de maneira definitiva: " Jesus voltou, Jesus voltou. Tomado de surpresa pela abordagem, olhei ao meu redor para ver se Ele estava por alí, porém logo retomei a consciência e descartei o fanático. A presença deles é comum na cidade. Continuando no passo retomei minhas preocupações. O caso cachoeira , com o senador Demóstenes e a imprensa nada tem em comum com Jesus, porém é emblemático. Um senador da república que durante anos se apresenta como defensor da ética, aparece como um dos principais membros de uma quadrilha que estraçalha a ética .As máscaras no regime plutocrático. Um vendedor de chips para celular grita no meu ouvido. Agora inventaram a moda de usar auto-falantes para vender suas tralhas. Fica dfícil manter o pensamento alinhado. Logo em seguida penso na imprensa. O quarto setor , que normalmente se espera que fiscalize o bom uso e andamento da coisa pública, é, para surpresa de todos, não minha, claro, também membro da quadrilha de cachoeira. Como relatar seus próprios crimes para a população, me pergunto. De que maneira a sociedade pode tomar conhecimento da verdade se seus representantes na política e o setor que informa, são os criminosos ? Penso no fanático e concluo. Jesus está longe voltar. Chego ao escritório e passo para a leitura diária. Para minha surpresa, o Rei da Espanha, que é presidente de honra de uma ong em defesa dos animais, sofre um acidente e quebra a bacia, em um safari para caçar elefantes. Defesa dos animais ? Logo os elefantes que estão em extinção. Em segundos sou tomado de perplexidade e me pergunto se o fanático de Jesus não seria o normal. Sigo na leitura e vejo o ex-primeiro ministro da Itália envolvido em escândalos sexuais, com máscaras de Ronaldinho nos rostos das meninas de seu harém. As máscaras da plutocracia sempre presentes, penso. O que teriam em comum Cachoeira, Demóstenes, a imprensa brasileira, O Rei da Espanha , o ex -premier da Itália, pergunto. As trevas, talvez, o  oposto da luz. Luz que o fanático tanto deseja. Seguindo na leitura, vejo uma colunista da tv globo, irada, transtornada, assim como o fanático, pelo fato da Presidenta Argentina ter  recuperado parte da soberania daquele país, ao reestatizar o setor petrolífero, já que a iniciativa privada que dominava o setor, ou o governo da plutocracia, não correspondia as necessidades de desenvolvimento do país. A soberania não é admitida pelo governo das trevas, pela plutocracia das máscaras. As vozes contrárias devem ser caladas, o surrealismo existe, e não é pelos fanáticos de Jesus.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Deu Zebra

Deu Zebra

Demóstenes, Cachoeira, Policarpo.
Parlamentar, Bicheiro , Jornalista.
Senador, Contraventor, Vigarista.
Legislativo, Crime Organizado, Imprensa.
Democracia, Plutocracia, Lucro.
Bandido, Bandido, Bandido.
Uma trinca foi flagrada, fazendo aquilo que o povo já desconfiava.
Os três são muitos, em poderes corroídos, beneficiando poucos através de eleitores iludidos. Os poderes envolvidos , cada dia mais poderosos, podres, fortes, mentirosos.
Bandido, Bandido, Bandido.
O crime organizado tudo sequestra, os parlamentares não representam o povo, pelas tintas, o  crime se  orquestra.
Jogo feito, banca forte, tudo armado.
Mas deu zebra, símbolo do imprevisto, do inesperado.
As peças se movem, os bichos correm, o circo está montado.
Apurar as responsabilidades, identificar os culpados, punir os desinformados.
Na lona, o povo assite ao espetáculo. Respeitável público !!! Grita um jornal, nem tão respeitável, sequer confiável, menos ainda amável, certamente lustrosamente maleável.
Bandido, Bandido, bandido.
O jogo continua rolando solto, a democracia foi tomada de assalto, e a imprensa continua informando os incautos.
A próxima atração do circo serão as CPI's. Cuidadosamente instaladas em função das eleições municipais, para possíveis ganhos, cercando todos os lados, garantindo a eleição de apadrinhados. A imprensa aproveita e faz um cínico escarcel. Tudo na base é dando que se recebe, no jogo, na política, no bordel.
Bandido, Bandido, Bandido.
Eu quero democracia participativa, grita o povo.
Eu quero continuar na minha boquinha ativa, diz o parlamentar.
Eu quero apenas legalizar mais uma modalidade de jogo, diz o bicheiro
Eu quero continuar enganado povo com as tintas e minha saliva, diz a imprensa.
O espetáculo segue radiante. Engolem-se sapos, tiram-se bichos de cartolas, todos com uma desenvoltura invejável. O público vai ao delírio. Bravo!!, Bravo !! Inacreditável !
Um circo do presente , sem memória, sem passado, sem idade. Alí se encontra o Brasil, com todos os seus personagens, a espera de uma resgate da verdade.
Bandido, Bandido, Bandido.

sexta-feira, 30 de março de 2012

O Quinto Poder

O Quinto Poder
Repercute nas mídias alternativas, em portais e em blogues sujos a matéria do último domingo do programa fantástico da tv globo. A armadilha criada por um repórter da emissora, para demonstrar possíveis casos de corrupção em órgãos da administração pública, teve um efeito contrário, atingindo em cheio a emissora e colocando em discussão o papel da chamada grande imprensa assim como as práticas utilizadas pelo jornalismo. Não é de hoje que o jornalismo, principalmente na televisão, tenta pautar os poderes da república e influenciar decisões que não são de sua competência, independente de casos de flagrantes ou outros. A lista é extensa, não configurando em ações pontuais da imprensa, daí a necessidade do debate. Vale lembrar alguns casos. Em um passado próximo, um caso marcante foi o assassinato de uma mulher da sociedade mineira , no então distrito de Búzios, litoral fluminense. Na metade da década de 1970 , Angela Diniz foi assassinada por seu companheiro, conhecido como Doca Street, ambos membros da sociedade. O motivo do crime ( vários tiros de  revólver a queima roupa) teria sido um flagrante de Doca quando Angela  mantinha relações sexuais com uma amiga do casal. O caso ganhou grande repercussão na mídia e foi a julgamento popular na Comarca de Cabo Frio. Independente da habilidade do advogado de Doca, o julgamento foi marcado , e ocorreu em meio a uma intensa propaganda machista e religiosa,  conduzida pela mídia e  que , certamente influenciou a decisão dos jurados. Doca foi absolvido, considerado inocente pela tese de defesa da honra, e na saída do tribunal foi aplaudido e ovacionado pelos populares na porta do Fórum.. Em um segundo julgamento, já que os familiares da vítima recorreram, aí sem os holofotes da imprensa, Doca foi condenado a passou boa parte de sua vida na penitenciária. Um outro caso de influencia da imprensa. teve contornos patéticos. Na campanha presidencial de 2010, o candidato apoiado ostensivamente pela imprensa, foi atingido por uma inofensiva bolinha de papel quando caminhava por um local de forte reduto de seu adversário na disputa. Imediatamente  quando recebeu a bolinha , funcionários da tv globo orientaram o candidato para simular um grave atentado, levando-o, inclusive, para uma clínica médica para ser submetido a uma tomografia , tudo isso acompanhado nos mínimos detalhes por câmeras da tv globo. Foi , inclusive, chamado para analisar  o "atentado" um perito em imagens que forneceu um  parecer, definitivo, da gravidade do caso. A tv globo, porém não contava que sua concorrente, o sbt, estava no local e gravou imagens por um outro ângulo diferente das imagens da tv globo, revelando que se tratava apenas de uma bolinha de papel inofensiva  que tinha atingido a parte mais frágil , visível e desprotegida do candidato e que tudo aquilo não passava de uma farsa para conduzir a opinião pública. Na internete, a reação foi imediata, fazendo com que a tv globo recuasse, e com sua cara de pau costumeira ignorasse o assunto. Um outro caso refere-se ao crime  que envolveu o casal  Nardoni, onde uma menina de sete anos, foi assassinada. A imprensa abraçou o caso de forma histérica, disponibilizando  análises e comentários a exaustão,  e exigindo a condenação do casal Nardoni. Ocorre que o tempo da tv não é o mesmo da polícia técnica, o que causou um descompasso na cobertura mas não retirou a imprensa de cena. O casal foi julgado culpado e condenado pelo crime, porém,  agora passados alguns anos, os advogados tentam recorrer pois alegam que o julgamento ocorreu sob forte influência da mídia, que "determinou" os culpados a priori.  Mais um caso envolveu um repórter do jornal extra, o popular dos Marinhos. Ao que se revelou para todos, o repórter, apenas por questões pessoais, teria participado de uma tentativa de ameaça física a um jogador de futebol. Em conluio com membros de uma torcida organizada do time do jogador em questão, o repórter passou a vigiar, diariamente, os passos do jogador informando aos membros da torcida o local  em que ele se encontrava, a noite, com um grupo de pessoas. O jogador chegou a ser ameaçado pelos supostos torcedores, pelo simples fato de sair as noites. O caso ganhou repercussão na internete, e para infelicidade do repórter, o atleta já desconfiava das intenções do repórter. Em vez de se sentir acuado com as "denúncias" de que estaria na farra, o atleta partiu prá cima do repórter, convocou coletivas de imprensa e desmascarou a farsa. A imprensa, de uma maneira geral, percebendo a mancada do jornal extra, calou-se em conjunto, como de costume. Entretanto a internete vive, e o assunto foi amplamente debatido. No momento que vimos jovens de torcida sendo assassinados em brigas, o comportamento da imprensa tem sido deplorável, revelando bandidos com microfone. Vale lembrar que o programa esportivo da tv bandeirantes, que acontece na hora do almoço, foi indiciado por incitar briga entre torcidas. Diante dos fatos , pode-se concluir que a imprensa no Brasil não é boa nem má, é irresponsável e vive relação harmônica com o banditismo. O caso agora do programa fantástico, mais uma vez as empresas dos Marinhos revela um comportamento que vem se acentuando desde a década de 1990. A imprensa , chamada como quarto poder, deseja se manter acima dos três  poderes da república, tentando influenciar e definir decisões, infelizmente, na minoria dos caso , com participação promíscua de pessoas desses poderes . Por outro lado, cresce o poder popular, principalmente com o advento das novas mídias, fazendo com que as trapaças, mentiras, manipulações  e outros crimes que a imprensa pratica sem qualquer pudor, sejam de imediato desmascarados, impondo, desta maneira, vergonhosas derrotas a um setor que , para o bem da democracia, necessita , urgente, de um novo marco regulatório. O quinto poder chegou, agiu e disse ao que veio.

terça-feira, 27 de março de 2012

Escracho

Bons Ventos

Uma surpresa agradável apareceu  nesta segunda-feira nas mídias digitais, alternativas e sujas. Sim, somente nelas. A grande mídia nada comentou, e percebam qua as   manifestações tiveram maiores conteúdo e abrangência que o patético desfile dos Cansei, que recebeu generosa visibilidade. Falo do Levante Popular da Juventude. Um movimento que não tem orientação política, enquanto movimento, o que não exclui a opção política de seus membros. A proposta, inteligente, simples e bem articulada, é de expor a existência de colaboradores da ditadura militar, mais precisamente torturadores, nas diferentes cidades do país colaborando para a instalação da Comissão da Verdade que irá apurar os casos de tortura durante o regime. As ações se baseiam no escracho, com protestos em frente residências e locais de trabalho dos torturadores, tudo com uma boa dose de humor, sem perder a essência do movimento. O momento não poderia ser melhor, exato na semana que algumas viúvas do regime ainda comemoram um golpe de estado que esfacelou uma geração de brasileiros. Em um mundo hiper vigiado por câmeras, armações para flagrantes que irão gerar factóides, tecnologia de ponta para espionagem de cidadãos comuns, as ações do Levante Popular da Juventude cobram a outra face da História, a exposição e punição de autores de crimes hediondos, a História passada a limpo, a perspectiva de um futuro diferente, uma democracia autêntica.